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PROJETOS DE ESTUDOS: Implicações no Processo de Constituição da Consciência Crítica

Ana Maria Louzada

A proposta de organização do trabalho pedagógico por meio de Projetos de Estudos tem como premissa básica a constituição de sujeitos com consciência crítica. Se constituir com consciência crítica, é a meta principal. Para tanto, necessário se faz romper com as práticas pedagógicas que insistem em considerar a criança um ser inacabado; ou um ser que se basta no processo de aprendizagem e desenvolvimento, e, ainda, não dá para continuarmos com práticas em que as crianças são vistas como meras executoras.

O Projeto de Estudo, como o próprio nome já diz, precisa ser planejado, sonhado, registrado e sistematizado de forma compartilhada. E em se tratando de projetos para estudos, implica em ser detalhado no sentido de garantir às crianças/estudantes, a produção, a apropriação e a objetivação dos conhecimentos, num processo de interlocução entre o conhecimento cotidiano e o conhecimento científico.

Isso significa dizer, que o seu detalhamento exige uma organização didática, na qual chamamos de Sequência Didática. As Sequências Didáticas promovem a objetivação dos estudos a serem realizados no decorrer do projeto. Constitui o detalhamento necessário para a apropriação dos conhecimentos científicos. 

Esse detalhamento didático, na qual intitulamos de Situações de Ensino e de Aprendizagem, é o passo a passo da Sequência Didática. Assim, por meio das Situações de Ensino e de Aprendizagem, devemos promover experiências, discussões, reflexões e estudos que promovam a interlocução entre os conhecimentos cotidianos e científicos, de forma que as crianças compreendam o espaço e tempo em que vivem e atuem nesse espaço e tempo com consciência crítica.

A proposta de estudos por meio de projetos é uma proposta político pedagógica. Isso por que:
- As crianças precisam ver sentido no que estão aprendendo no lócus da escola. Por isso precisam viver experiências significativas.
- O trabalho com Projeto de Estudos, nos permite dialogar com as múltiplas linguagens e com os diferentes conhecimentos das diversas áreas do saber, numa perspectiva interdisciplinar.
- Os estudos realizados por meio de projetos, nos permitem ir ao encontro das reais necessidades das crianças/estudantes.
- O processo de ensino e de aprendizagem se constitui com mais sentido e significado, uma vez que os estudos a serem realizados têm motivo real, objetivo real e interlocutores reais.
- A mediação pedagógica, tem como princípio a aprendizagem compartilhada.
- As crianças se inserem no projeto enquanto sujeito de direito - direito a vez e voz.
- A proposta de estudos por meio de projetos se ancora na premissa de que devemos considerar as práticas sociais e culturais infantis, Etc.

Vale destacar, que a organização do trabalho pedagógico por meio de projetos de estudos, tem como premissa básica a constituição do sujeito num processo dialógico, em que a linguagem se revela instrumento mediador, e com implicações significativas no processo de constituição da individualidade, isto é, na constituição da consciência, na qual se promovem o desenvolvimento das funções psicológicas superiores.

Desta forma, a constituição da consciência pode ser explicada com base nos princípios da interação entre o “eu e o outro”, que ocorre no cotidiano das práticas sociais e culturais. A consciência se constitui na/pela interação entre objetivação e apropriação, enquanto mediadora entre a vida/experiência do indivíduo e a história do gênero humano.

Conforme nos fala Bakthin (1992b),  


(...) tudo o que me diz respeito, a começar por meu nome, e que penetra em minha consciência, vêm-me do mundo exterior, da boca do outro, e me é dado com a entonação, com o tom emotivo dos valores deles. Tomo consciência de mim, originalmente, através dos outros: deles recebo a palavra, a forma e o tom que servirão para a formação original da representação que terei de mim mesmo (...). Assim como o corpo se forma originalmente dentro do seio (do corpo) materno, a consciência do homem desperta envolta na consciência do outro (p. 378). 


   O indivíduo/sujeito se constitui no processo de interlocução entre o “eu e o outro” e essa constituição se realiza por meio da relação entre a apropriação e a objetivação dos diferentes conceitos/conhecimentos que permeiam as práticas sociais e culturais, na qual acontecem as múltiplas interações entre os sujeitos.

Assim, no que se refere ao processo educativo de cunho pedagógico, aquele que acontece no contexto da escola, precisa-se destacar o seu caráter eminentemente científico e político, e que, portanto exige mediação pedagógica, de forma consciente, crítica, problematizadora e instigadora.

A constituição da individualidade, da consciência humana, inicialmente não se revela de forma consciente. Isso significa que a constituição da consciência, num primeiro momento demonstra uma relação espontânea entre o indivíduo e as objetivações produzidas ao longo da história.

Nesse sentido, os conhecimentos cotidianos, aqueles produzidos, apropriados e objetivados no cotidiano das práticas sociais e culturais informais, promovem a constituição da consciência humana, mas não garante que sua constituição ocorra de forma crítica.

Quando destacamos a constituição da consciência crítica, estamos defendendo uma educação que leve em consideração a constituição da individualidade que acontece no cotidiano das interações sociais e culturais realizadas nas diferentes esferas de interação social e cultural (na família, na comunidade, na igreja que frequenta, dentre outras). 

Levar em consideração essa realidade significa considerar as práticas sociais e culturais vividas nesse cotidiano, na qual chamamos de conhecimento cotidiano, e assim, promover a sua interlocução com os conhecimentos científicos, com vistas à constituição da consciência crítica.

Nesse sentido, precisamos considerar a importância de práticas pedagógicas que objetivem os conhecimentos científicos de forma crítica. Daí a importância da mediação pedagógica instigadora, problematizadora, desafiadora, questionadora, enfim, uma mediação pedagógica comprometida com a emancipação do sujeito, com a constituição de sujeitos comprometidos politicamente com o espaço e tempo em que vivem comprometidos com as pessoas e consigo mesmo.

Sujeitos que consigam se relacionar com os espaços e tempos em que vivem de forma crítica, que saibam ler nas entrelinhas as artimanhas da ideologia que permeia o nosso cotidiano: consumismo exacerbado, naturalização da fome do outro, desconsideração do outro como sujeito do gênero humano, etc.

Isso porque, percebemos que os sujeitos têm se constituído num contexto social, cultural, histórico, ideológico, político e econômico em que ainda e infelizmente existem discriminações, preconceitos raciais, de gênero, de sexualidade, de classe, de deficiência física, dentre outros, e ainda, o fato de nos constituirmos numa relação de poder e de severo consumismo, as práticas sociais e culturais tem promovido a constituição da individualidade de forma alienada. E é nessa perspectiva, que defendemos uma educação que promova atitudes questionadoras, problematizadoras e críticas em relação aos tempos e espaços em que vivemos.

Nesse sentido, dialogamos com Duarte (1993) que no nosso entender, ao destacar a formação da individualidade em-si e para-si, evidenciando o papel da escola na superação da individualidade em-si, com vistas à formação da individualidade para-si, nos instiga a pensar numa proposta político pedagógica, que promova a constituição da consciência crítica.


   Para Duarte (1993), 


- O indivíduo em-si alienado não mantém uma relação consciente também com sua particularidade. Ele se identifica espontaneamente com ela, assim como se identifica espontaneamente com os elementos da genericidade dos quais precisa se apropriar para viver em seu meio social;
- O indivíduo para-si é o ser humano cuja individualidade está em permanente busca de se relacionar conscientemente com sua própria vida, com sua individualidade, mediado pela também constante busca de relação consciente com o gênero humano;
- O indivíduo em-si alienado não conduz a sua vida cotidiana, mas é por ela conduzido. Assume como natural a hierarquia espontânea das atividades cotidianas que encontra pronta em seu meio social imediato, hierarquia esta determinada pelas relações sociais, desde as relações de produção, até as relações mais imediatamente relacionadas à sua disposição no quadro das relações alienadas;
- O processo educativo não pode ser visto apenas como um processo que coloca o indivíduo, em contato com as objetivações genéricas para-si, [conhecimento científico - ciência, arte, filosofia, política, etc], mas também e não secundariamente, como um processo que torna as objetivações genéricas para-si uma necessidade para o pleno desenvolvimento do indivíduo (Duarte, 1993, 183-196). 


   Como podemos ver Duarte, se remete ao processo de formação da individualidade do sujeito, destacando a importância do trabalho a ser realizado no lócus da escola, nos instigando a considerar a importância da interlocução entre o currículo vivido/conhecimento cotidiano e o currículo prescrito/conhecimento científico.

Nesse contexto de análise, destacamos também a importância de dialogarmos com os estudos de Paulo Freire, tendo em vista que as suas proposições se ancoram em premissas que defendem uma educação transformadora, uma pedagogia dialógica e práticas de liberdade.

Sua proposta de trabalho parte sempre de um contexto concreto para responder a esse contexto. Partir das experiências concretas, reais e necessárias, bem como, considerar os conhecimentos cotidianos como ponto de partida e de chegada, se constitui mais uma premissa fundamental no processo de organização do trabalho pedagógico por meio de projetos de estudos.

Isso porque, não se promove a constituição de sujeito com consciência crítica, quando planejamos atividades desvinculadas da realidade cotidiana da comunidade escolar, e, ainda quando planejamos visando apenas a execução das mesmas pelas crianças/estudantes.  


O educador, que aliena a ignorância, se mantém em posições fixas, invariáveis. Será sempre o que sabe, enquanto os educandos serão sempre os que não sabem. A rigidez destas posições nega a educação e o conhecimento como processo de busca (...) se o educador é o que sabe, se os educandos são os que nada sabem, cabe àquele dar, entregar, levar, transmitir o seu saber aos segundos. Saber que deixa de ser de “experiência feito” para ser de experiência narrada ou transmitida. Não é de estranhar, pois que nessa visão “bancária” da educação, os homens sejam vistos como seres da adaptação, do ajustamento. Quanto mais se exercitem os educandos no arquivamento dos depósitos que lhes são feitos, tanto menos desenvolverão em si a consciência crítica de que resultaria a sua inserção no mundo, como transformadores dele. Como sujeitos (FREIRE, 1974, p. 58-60). 


   Nesse sentido, necessário se faz considerar que não dá para organizar Projetos de Estudos com Sequências Didáticas sem contextualizar os conhecimentos necessários para a emancipação da comunidade. Não dá para ensinar com parlendas, apenas por causa da sonoridade das palavras, pois essas atividades têm objetivos em si mesmas, e, ainda tem o objetivo de formar o educando-massa, com consciência ingênua, num processo de constituição da individualidade em-si alienada. 


Quanto mais se problematizam os educandos, como seres no mundo e com o mundo, tanto mais se sentirão desafiados. Tão mis desafiados, quanto mais obrigados a responder o desafio. Desafiados, compreendem o desafio na própria ação de captá-los. Mas, precisamente porque captam o desafio como um problema em suas conexões com outros, num plano de totalidade e não como ago petrificado, a compreensão resultante tende a tornar-se crescentemente crítica, por isto, cada vez mais desalienada (FREIRE, 1974, p.70). 


    Assim, poderíamos destacar que a organização do trabalho pedagógico por meio de Projetos de Estudos, exige mediação pedagógica entre as objetivações cotidianas que conduzem a constituição da individualidade em-si alienada - consciência ingênua e as objetivações para-si, conscientes, com vistas à constituição da consciência crítica. 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BAKTHIN, Mikhail.  Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: HUCITEC, 1992.
DUARTE, Newton.  A individualidade para-si: contribuição a uma teoria-social da formação do indivíduo. São Paulo: Autores Associados, 1993.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido.  São Paulo: Paz e Terra, 1997.

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